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Curiosidades
Cancioneiro da Quarta-Feira


Cancioneiro da Quarta-Feira



Leonardo Dantas Silva

Depois de um Carnaval, vem a quarta-feira ingrata, onde tudo cinzas! A partir de ento tem incio a Quaresma que, no passado, era tempo de reflexo, jejum e abstinncia completa de carne. Em cada Quarta-Feira de Cinzas, porm, resta no peito do verdadeiro folio uma saudade, uma lembrana do carnaval que passou, assim expressada por vezes com lgrimas e acalentadas pelos versos do prprio cancioneiro carnavalesco de Edu Lobo.

Hoje no tem dana
No tem mais menina de trana
Nem cheiro de lana no ar
Hoje no tem frevo
Tem gente que passa com medo
Na praa ningum pra cantar.

Como no poema de Vincius de Moraes, musicado por Carlos Lyra, chegou ao fim mais um carnaval (Marcha da quarta-feira de cinzas):

Acabou o nosso carnaval
Ningum ouve cantar canes
Ningum passa mais
Brincando feliz
E nos coraes
Saudades e cinzas
Foi o que restou
Pelas ruas, o que se v
uma gente que nem se v
Que nem se sorri
Se beija e se abraa
E sai caminhando
Danando e cantando
Cantigas de amor...

Na quarta-feira, o folio de ontem volta realidade do dia-a-dia, depois de conviver naquele reino azul da fantasia, sob a gide do Rei Momo, onde por momentos parecia ter encontrado a morada da felicidade. Ao reencontrar-se consigo mesmo, mirando-se no espelho ao amanhecer da quarta-feira, o folio cansado, vem descobrir dentro de si que o carnaval, apesar dos guizos e de todo colorido que se faz presente aos olhos, uma festa triste; como nos versos de Raul e Joo Victor do Rego Valena, os Irmos Valena (Saudade):

De que nos serve a folia
Tanto prazer e alegria
O carnaval a iluso
Deixando uma triste recordao
E se voltamos chorando
a saudade
Que nos vem
Algum nos ficou amando
E ficamos querendo algum

De h muito o cancioneiro carnavalesco vem sendo tomado de versos inspirados na nostalgia trazida pela quarta-feira, desde os anos vinte quando os blocos carnavalescos regressavam s suas sedes cantando marchas, como esta de Raul Moraes (Despedida):

Adeus, minha gente
O bloco vai embora
Sentindo que a alma chora
E o corao fremente
Diz, findou-se o carnaval
At para o ano, adeus
Guarda nossas saudades
Que imploraro aos cus
Felicidades para, nossa alma liberal
Essa cano saudosa,
H de fazer chorar
E sempre a relembrar
Nossa gente buliosa
De regresso a cantar.

A espera de um outro carnaval o acalanto que embala a alma de todo poeta e sonhador, como nos versos de Capiba, em De chapu de sol aberto (1973):

Espero o ano inteiro,
At ver chegar fevereiro
Para ouvir o clarim clarinar
E a alegria chegar!
Esta alegria de mim
Parece que no ter fim
Mas se um dia o frevo acabar!
Juro que vou chorar...

O carnaval talvez a forma de suavizar a vida desses poetas, da a tristeza que toma conta do esprito de todos no alvorecer da quarta-feira, como naquele frevo de Nelson Ferreira:

Um carnaval a mais
Que beleza, no entanto...
Um carnaval a menos, que tristeza.
Vida, no parta to depressa.
Ainda quero viver muitos carnavais...

Alguns deles no se conformam com a chegada da quarta-feira e por vezes teimam prolongar o seu prprio carnaval interior, como se fosse um pio a lhes transportar para o mundo da fantasia e do surrealismo, como no frevo de Rudy Barbosa (Por que quarta-feira?) :

Estou vendo, a manh est dizendo:
J quarta-feira! Por que saideira,
Se eu no queria, pra casa voltar...
Voltar, pra qu!
Voltar, pra qu!
Se vai voltar esta saudade de voc

Vou desfilar meu sorriso
E ser o palhao, nesta multido.
Pra repousar meu cansao,
Igual ao teu brao,
No encontro mais no

Solido, eu me embriago agora!
Est chegando a hora
D a tristeza voltar
Solido, eu me embriago agora!
Est chegando a hora
D a tristeza voltar.

Para o autntico folio, particularmente para os romnticos dos anos dourados, quando a permissividade dos costumes no era a tnica dos festejos carnavalescos, a contagem regressiva da madrugada de uma quarta-feira se transformava em suplcio; como nos versos de Geraldo Costa e Jos Menezes (Terceiro dia):

A noite morre, o sol vem chegando...
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual
Que s termina
Com um novo carnaval

Mas o que ensina a lio que se vai um carnaval, mas fica-se sempre com uma saudade; como no frevo dos irmos Reinaldo e Fernando Oliveira ( quarta-feira, madrugada):

quarta-feira, madrugada...
O sol j chegou
O carnaval foi tudo um sonho bom que passou
Recordar no adianta nada, meu bem...
Melhor esperar, pr ano que vem!

Saudade vive escondida...
Esperando todo fim de carnaval
No adianta esperar por toda vida
Nem por um ponto final.

Para aquele folio empedernido, porm, que viveu o carnaval at os ltimos acordes; folio daqueles que em anos passados s saa dos sales acompanhando as orquestras, sob o comando de Nelson Ferreira, Guedes Peixoto ou Jos Menezes, em meio turba frevolenta at os jardins da Praa do Entroncamento ou da Praa do Internacional, para s assim encerrar, s sete horas da manh da quarta-feira, o seu carnaval. Para esses, que viveram tantas paixes e que ainda hoje esto a lembrar daqueles rostos juvenis, que se perderam em meio aos confetes e serpentinas dos passados carnavais, pelo menos o frevo de Luiz Bandeira, gravado por Carmlia Alves em 1957 (Copacabana n 5699, matriz 1725), ficou na lembrana:

de fazer chorar
Quando o dia amanhece e obriga do frevo acabar
quarta-feira ingrata
Chega to depressa
S pra contrariar
Quem de fato, um bom pernambucano...
Espera um ano,
e se mete na brincadeira
Esquece tudo, quando cai no frevo.
E no melhor da festa,
Chega a quarta-feira.

Sim meus amigos, o nosso carnaval acabou. Como o poeta Vinicius de Moraes s nos resta cantar:

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas to lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz
Seu canto de paz.

Mas para aquele pernambucano, ausente da terra, distante dos amigos e obrigado a conviver com gente estranha que no sabe o que Carnaval, o esprito da quarta-feira dura o ano inteiro e o acompanha onde quer que se encontre. Longe do Recife, exilado voluntrio do seu prprio cho, privado da paisagem e dos sons que acalenta em sua alma de folio, ele estar sempre a cantar baixinho, como a embalar o seu prprio corao, balbuciando a letra daquele frevo-cano, composto por Antnio Maria Arajo de Morais (Recife, 1921 - Rio, 1964) num de seus momentos de banzo e de saudades do seu torro, Frevo n 1 do Recife, gravado inicialmente pelo Trio de Ouro em 9 de agosto de 1951. O sucesso veio a ser regravado depois com competncia por muita gente, a exemplo de Claudionor Germano e Expedito Baracho


, , , , ... saudade
Saudade, to grande.
Saudade que eu sinto
Do Clube das Ps, do Vassouras,
Passistas tranando tesouras,
Nas ruas repletas de l...
Batidas de bombos,
So maracatus retardados,
Chegando cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar.

Quando eu me lembro
Que o Recife est longe
E a saudade to grande
Que eu at me embarao
Parece que eu vejo
Valfrido Cebola, no passo
Haroldo Fatia, Colao...
O Recife est perto de mim.



.


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