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Quem Esta Dupla Caipira Cantando Tom Jobim?

QUEM ESTA DUPLA CAIPIRA CANTANDO TOM JOBIM? 
 
Duas faixas hilariantes com as misteriosas Mara e Cota na caixa "Tom Jobim - Raros Compassos, com trs CDs, da Revivendo, desafiam os pesquisadores. Descubra aqui a identidade secreta das duas cantoras 
 
A caixa de trs CDs, Tom Jobim - Raros Compassos, lanada este ms pelo selo Revivendo, com 76 gravaes pouco conhecidas das canes de Antonio Carlos Jobim pelos intrpretes mais surpreendentes, contm um enigma que ningum foi capaz de decifrar - at agora. E o enigma : quem a infame dupla caipira feminina, identificada apenas como Mara e Cota, que interpreta Eu no Existo sem Voc e Eu sei Que Vou Te Amar, gravadas em outubro de 1959 na Odeon? 
 
Mara e Cota? Nem os maiores fs daquele gnero de msica que um dia, j foi chamado de "sertanejo" (mas que, hoje, s merece o nome de oportunista), devem ter ouvido falar nessa dupla. E por uma razo simples: ela no existiu. Nem em 1959, nem nunca. Pelo menos, nunca foi vista ao vivo, nunca cantou em rodeios e nunca se apresentou no rdio, nem mesmo naqueles programas s 5 da manh, patrocinados por vendedores de adubos ou fabricantes de arreios. Mara e Cota s existiram por algumas horas, para a gravao do terrvel 78 rpm em que elas cantam, exagerando na caipirice, duas canes do j ento mais sofisticado compositor brasileiro e seu parceiro Vincius de Morais. Est bem, chega de suspense: Mara e Cota eram pseudnimos que escondia as identidades secretas de Sylvinha Telles e Stelinha Egg. 
 
Sylvinha Telles e Stelinha Egg??? Agora foi a sua vez de levar um susto. Aos 25 anos em 1959, a carioca Sylvinha era a cantora mais "moderna" do Brasil. Naquele mesmo ms de outubro, ela estava gravando, tambm na Odeon, o LP que a consagraria como a grande intrprete da bossa nova depois de Joo Gilberto: Amor de Gente Moa, com 12 canes do jovem Jobim, a maioria inditas. Quanto paranaense Stellinha Egg (bem mais velha com 45 anos), era uma respeitada cantora folclrica - seu talento e bom gosto j a tinham levado a se apresentar em vrios pases da Europa, incluindo a URSS. Por que as duas se meteriam a gravar em estilo caipira, com aquele sotaque horroroso e, principalmente, estraalhando duas canes ultra-elaboradas, com letras to longas e caprichadas? 
 
Por um misto de brincadeira e jogada comercial. As duas eram ento contratadas da Odeon. Sylvinha era mulher do Alusio de Oliveira, diretor-artstico e principal produtor da gravadora. Stellinha era mulher do maestro Lindolfo Gaya, e arranjador favorito de Alusio e tambm contratado da Odeon. Por mais conhecidas e admiradas, as duas no eram grandes vendedoras de discos. Faziam parte do elenco que dava "prestgio" gravadora (juntamente com Joo Gilberto, Lcio Alves e Srgio Ricardo), mas, em termos de vendas, no podiam competir com Dalva de Oliveira, Ansio Silva e outros que atingiam as grandes massas. Os executivos ingleses que comandavam a Odeon pressionavam Alusio a se livrar daqueles cantores que segundo eles, "s agradavam aos intelectuais". 
 
A idia de reuni-las numa dupla caipira partiu, quase que involuntariamente, do artista grfico e capista da Odeon Csar Villela. Ao ouvir as queixas de Alusio contra os ingleses, Csar sugeriu-lhe, sem imaginar que seria levado a srio, a acoplar Sylvinha a alguma outra cantora para formar uma dupla caipira. O disco venderia milhares e sossegaria os gringos, brincou Csar. Para sua surpresa, Alusio gostou da idia. Mas s podia fazer isso com gente de sua confiana, como Stellinha e Gaya. E, sendo Alusio quem era, jamais as deixaria cantar o repertrio de arraial das duplas caipiras. Podiam cantar caipira, mas as canes teriam de ser de, imagine, Tom e Vincius. O resultado foi o 78 rpm 14.556 da Odeon, tendo no lado A Eu no Existo sem Voc e, no lado B, Eu Sei Que Vou Te Amar, lanado um ms depois, em novembro. 
 
As duas faixas esto na magnfica caixa da Revivendo e, como diz o texto do encarte, "s ouvindo para acreditar". As vozes so afinadssimas, mas o resultado hilariante. O andamento de toada, o acompanhamento uma sanfoninha de amargar e as duas se esbaldam nos erres flcidos ("Eu sei que vou te amarrr...") e nos erros de pronncia ("vorrrta" em vez de "volta"). nitidamente falso, assim como o nome da dupla, Mara e Cota, que tambm soa fabricado. E, nem com todos esses indcios, conseguiu-se descobrir a identidade delas. Na poca, os nicos a suspeitar que se tratava de uma gozao foram os sertanejos Tonico e Tinoco, que escreveram uma sentida carta Odeon, queixando-se do "desrespeito". 
 
Desrespeito ou no, o disco no estourou na roa como se esperava. Apagou-se sozinho e, ao fim e ao cabo, s serviu mesmo para algumas boas gargalhadas entre os casais Sylvinha/Alusio e Stellinha/Gaya. Donde, ao ressurgir do nada, 41 anos depois, era normal que ningum (nem o autor do texto do encarte da Revivendo, nem os crticos que tm escrito sobre a caixa) soubesse quem eram Mara e Cota. 
 
Est bem, ento como fiquei sabendo? Por uma conversa h tempos com Csar Villela. Casualmente, ele me falou da existncia de um 78 de Sylvinha e Stelinha pela Odeon, em 1959, cantando msica caipira sob pseudnimo. Mas no sabia qual era esse pseudnimo. Sa procura do disco, sem muitas esperanas de encontr-lo - pelo menos no to depressa. De repente, surgiram Mara e Cota na caixa da Revivendo. Todos os indcios sugeriam que era esse o disco. Pois bastou submet-lo a Csar e ao grande violinista carioca Candinho para me certificar. De ouvido, Csar confirmou que eram elas e reconstituiu a histria da gravao. Mas o veredicto final veio de Candinho: ele foi o primeiro marido de Sylvinha, tocou com ela milhares de vezes e seria capaz de reconhecer sua voz no meio da torcida do Flamengo. 
 
Mas as faixas de Mara e Cota, por mais fascinantes, so somente duas curiosidades numa caixa que est cheia delas. Outra preciosidade a valsa Moonlight Daiquiri, um belssimo instrumental de Tom, gravado pela orquestra do maestro Leo Peracchi em 1958, tambm na Odeon, e que o texto do encarte inclui erroneamente entre as canes que "s ficaram numa primeira gravao". Com esse ttulo, sim.. mas, depois de ganhar letra de Chico Buarque em 1983, Moonlight Daiquiri tornou-se Imagina, gravada naquele ano por Djavan e Olivia Byington na trilha sonora do filme Para Viver um Grande Amor e depois regravada vrias vezes. 
 
O mais interessante da caixa, no entanto, observar o contraste entre a imediata adeso de todos os tipos de cantores s canes de Tom Jobim em fins dos anos 50 e pouca importncia que deram inicialmente batida da bossa nova introduzida por Joo Gilberto, com a qual Jobim comeava a ficar identificado. Das 76 faixas, 40 foram gravadas naqueles anos cruciais de 1958 e 1959, em que Joo Gilberto estava se lanando com seu primeiro LP. Nenhuma delas bossa nova - ou nenhuma tem a batida da bossa nova. Ao contrrio, as canes de Jobim so submetidas a uma ampla variedade rtmica, tpica da msica popular brasileira daquela poca. O prprio Jobim facilitava essa variedade porque, j ento, compunha numa rica gama rtmica - sambas, sambas-canes, choros, foxes, valsas e at boleros. Foi Joo Gilberto quem transformou em bossa nova. 
 
Aos ouvidos de hoje pode parecer estranho escutar Chega de Saudade, Meditao ou Insensatez cantadas a plenos pulmes, mas era assim que elas eram entendidas pelo ento establishment musical. H quatro gravaes de A Felicidade e todas seguem o padro tradiconal, com bateria de escola de samba e coro, porque foi assim que ela se consagrou no filme Orfeu do carnaval, em 1959. Da mesma forma, normal que a totalidade dos sambas-canes da caixas tenham um ar de "msica de boate."- porque a boate era praticamente o nico lugar onde se podia ouvir msica ao vivo e isso determinavam jeito particular de cantar e tocar. A bossa nova vinha para acarbar com aquelas "Cantoras tocando chocalho", como diziam - e acabou mesmo. 
 
por isso, que tantos intrpretes da caixa tornaram-se hoje nomes que voc no encontrar nem nas enciclopdias: Carlos Augusto, Delora Bueno, Diana Montez, Dora Lopes, Dorinha Freitas, Ernani Filho, Jandira Gonalves, Jos Orlando, Nelly Martins, Neusa Maria, Norma Suely, Snia Dutra, Vera Lcia e at mesmo Vanja Orico. E injusto, porque quase todos eram muito bons - os homens, herdeiros da tradio de Slvio Caldas ou Orlando Silva; as mulheres discpulas de Aracy de Almeida ou Elizeth Cardoso. Mas a bossa nova as tornou "antigas". 
 
Outros daqueles cantores, como Agostinho dos Santos, Angela Maria, Cauby Peixoto, Carlos Jos, Marlene e o prprio Dick Farney, sobreviveram, sem dvida, mas sem o brilho que lhes parecia garantido nos anos pr-1959. E h os que ficaram cruelmente esquecidos, com Albertinho Fortuna, Ana Lcia e Marisa Gata Mansa. Mas a prova de que a bossa nova era mesmo um radical divisor de guas est na gravao de Se Todos Fossem Iguais a Voc, por Vicente Celestino, em 1959. Ao ouvi-la, voc morrer de rir. Ou de chorar. Sem meio-termo. 
 
(Ruy Castro) 
O Estado de S.Paulo. Caderno 2. Sbado 27/05/2000. Pg. D5.  
 
 


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